A decadência da sociedade ocidental
Nietzsche tinha a firme convicção de que a sociedade européia em que vivia estava atacada por profundos males, cujas sinais de decadência mais evidentes revelavam-se:
a) pela expansão do liberalismo (visto como doutrina de uma burguesia senil e covarde, sem energia para reprimir a emergência da nova barbárie);
b) pela crescente demanda pela democracia feita por sindicatos e pelo populacho em geral, ao qual se associavam movimentos feministas e outros libertários ("porque, bem sabes, chegou a hora da grande, pérfida, longa, lenta rebelião da plebe e dos escravos; que cresce e continua a crescer"- Zaratustra, IV parte) ;
c)pelo crescente império do mau gosto, no teatro, na ópera, na música, exposto pela difusão e divulgação da arte popular ("É que, hoje, os pequenos homens do povinho tornaram-se os senhores...isso, agora, quer tornar-se senhor de todo o destino humano. Oh, nojo! Nojo! Nojo!"- Zaratustra - IV parte, 3)
Origens mais remotas da decadência
Deve-se ao cristianismo, segundo Nietzsche, a origem mais remota da crescente debilitação da elite européia, na medida em que aquela religião retirou dela, a capacidade de retaliação. Esta era necessária para afirmá-la como poder, mas devido à pregação da tolerância, e pelo exercício inútil da piedade, da compaixão e do perdão, a velha estirpe se enfraqueceu, senilizou-se.
O cristianismo é uma religião de escravos que louvava a pobreza, a humildade (dos pobres é o Reino dos Céus) e a covardia (dar a outra face), opondo-se à ética dos fortes, dos senhores romanos. O ódio paulino ao sexo nada mais era do que um disfarce do ódio que o cristianismo devota à vida, devido ao sentimento de inferioridade intrínseca daqueles que se ressentiam contra os seus dominadores. A influência dos evangelistas envenenou Roma, contribuindo para a sua decadência ao fazer com que o senhores do império perdessem o elã e a crueldade que era preciso para manter coeso o seu domínio do mundo. Os conceitos de bem e do mal estão superados porque Deus morreu, logo era preciso encarar a realidade e concentrar a atenção na elaboração de uma outra ética que se baseasse apenas na força do caráter e da personalidade do indivíduo.
O que fazer?
A expectativa de Nietzsche, a única esperança que ele vislumbrou para evitar a bancarrota da grande cultura ocidental, ameaçada pelo mau gosto do populacho e pela possível insurreição das massas (como correra com a Comuna de Paris em 1871), era aguardar a chegada do super-homem. A ele, a este novo messias, estaria reservada a tarefa hercúlea de enquadrar a plebe, reprimindo seus anseios político e sua desqualificação estética. O super-homem não existia na época em que Nietzsche viveu, mas profetizou sua chegada para o futuro. Ele é quem executaria a transmutação dos valores, fazendo com que "Bom" e "Justo" voltassem a ser associado a "Nobre" e "Digno", e não mais a "Pobre" ou "Humilde", como ocorria na moral cristã.
Quem é o super-homem?
Este poderoso e tão popular personagem da imaginação nietzscheana derivou do romantismo alemão (com sua incontida celebração do gênio, do indivíduo dotado de virtudes incomuns) mas também da secularização da mitologia, encarnada num Prometeu redivivo, já assinalado por Goethe. O gênio é uma força irracional, um fenômeno da natureza, quase divino e absolutamente extraordinário: assim o enalteceram Goethe, Fichte e Hegel (que afinal conviveram com Napoleão Bonaparte). Ele encontrava-se bem acima dos demais mortais, sendo característico dele usar os outros seres humanos apenas como degrau para sua ascensão. É um forte, um aristocrata (não no sentido de sangue, mas de personalidade), um colossal egocêntrico que faz suas próprias leis e regras e que não segue as da manada. Mas o super-homem pode ser visto também como o resultado último da uma concepção evolucionista. Se, no passado remoto, como ensinou Darwin, fomos precedidos pelos símio, sendo o homem do presente apenas uma ponte, o futuro seria irremediavelmente dominado pelo super-homem.